Quando penso na palavra analógico, lembro-me sempre dos meus tempos de estudante na Faculdade de Belas Artes, em que se tiravam fotografias em filme em vez de máquina digital, e havia até quem construísse pequenas câmaras em papel (as chamadas câmaras pinhole) que permitiam tirar fotografias sem a utilização de uma lente. Há vinte anos atrás, quem tirasse um curso de Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes, passaria praticamente cinco anos da sua vida sem mexer num computador, como foi o meu caso.
E talvez justamente por uma vontade de viver um pouco mais afastada dos ecrãs, tenha sentido, a certa altura, a necessidade de criar uma marca em que pudesse fazer algo com as minhas mãos.
Hoje em dia, pela natureza do meu trabalho, vivo uma vida talvez mais analógica que a maioria das pessoas, mais dependentes dos computadores e das tecnologias para trabalhar. E cada vez mais, encontro prazer em atividades afastadas do mundo digital.
Tenho também pensado que talvez uma forma possível de abrandar ligeiramente o tempo (que parece nos escapar das mãos como grãos de areia), seja em fazer pequenas mudanças do digital para o mundo analógico.
Digital e Analógico: duas formas de habitar o tempo
Cada vez mais mergulhados no mundo digital, é talvez importante relembrar que em cada um destes universos, estabelecemos relações diferentes com o mundo que nos rodeia.
No digital, vemos o mundo convertido em dados, pixels, ecrãs, notificações e velocidade. No analógico, o mundo está à nossa frente, inteiro, físico, com cheiro, peso e textura.
Quando escrevemos e apagamos num ecrã, não fica nenhum rasto.
Quando escrevemos e riscamos numa folha, fica uma memória, uma camada, uma história.
Por isso, se o digital é uma tradução do mundo, o analógico é a matéria em que tocamos. É o cheiro das páginas do livro que lemos, as frases que sublinhamos com um lápis, e a chávena de chá quente que nos aquece as mãos.
O digital organiza o mundo em dados que podem ser armazenados, enviados e reproduzidos (o que também tem a sua magia).
Mas o analógico organiza o mundo em sensações.
E por isso o digital é infinito e imaterial.
Já o analógico é limitado, e por isso precioso.
Um pixel nunca envelhece.
Mas uma página amarelece.
Um tecido gasta-se.
e uma chávena estala.
O analógico carrega, por isso, a beleza do tempo.
O digital conecta-nos ao mundo.
Mas acredito que é o analógico nos pode ajudar a reconectar a nós próprios e aos outros.
E talvez seja isso que procuramos quando desligamos o ecrã e acendemos uma vela: um tempo que possa ser habitado.
Aqui ficam algumas sugestões para que possamos, cada vez mais, abraçar os prazeres da vida analógica.
Ler em Papel
Ler livros e revista em papel, numa época em que os livros e as revistas são cada vez mais objetos estéticos, é das coisas que mais prazer me dá. Continuo a ser uma amante do objeto livro, e não consigo ler sem sublinhar passagens, pensamentos e ideias. E cá por casa eles têm vindo a substituir por completo a televisão, que praticamente não é ligada. Neste momento estou a ler o "Quarto do Bebé", da Anabela Mota Ribeiro, e estou a gostar bastante. É um romance auto-ficcional em forma de diário íntimo (passado em tempos de pandemia), que nos mostra que a escrita também pode ser uma forma de arrumar e re-organizar a dor, a memória e o desejo.
E se há muitos anos que sou leitora regular de revistas de decoração, mais recentemente ganhei um novo amor: a revista Lifestyle do Observador, que compro todos os meses assiduamente. Sou apaixonada pelo design gráfico da revista, pelo cheiro do papel, e pelos conteúdos com tão boa qualidade, sempre muito relacionados com o mundo dos crafts, e com o que de melhor se faz em Portugal.
Escrever à Mão
Escrever à mão tem sido uma das (re)descobertas mais agradáveis dos últimos tempos. Comecei a fazê-lo porque me apercebi que ouvia um podcast ou entrevista interessante, e no dia seguinte já quase não me lembrava das ideias e pensamentos que tinha achado mais interessantes. E depois, nesse processo, comecei a aperceber-me de que gosto muito de escrever à mão, de treinar a caligrafia, e de mais tarde reler esses registos escritos por mim. Esse caderno de apontamentos foi-se tornando aos poucos uma espécie de diário da minha vida no atelier, e hoje é um dos meus cadernos preferidos.
Para além desse, neste momento, já organizo a minha vida quase toda em cadernos, desde as tarefas para fazer em cada dia, como as publicações para as nas redes sociais, as vendas que faço, etc,, e isso tem trazido uma fatia muito simpática de felicidade à minha vida.
Estar em contacto com a Natureza
Há medida que os anos passam, mais sinto que a proximidade com a natureza é das coisas mais saudáveis e benéficas que existe. Há qualquer coisa de apaziguante e regenerador na proximidade com o mundo natural que não encontro em mais lado nenhum. E nunca me esqueço, nos tempos seguintes à pandemia, dos efeitos benéficos que os vários passeios e caminhadas que fiz (principalmente por Sintra) tiveram ma minha saúde mental.
“I went to the woods because I wished to live deliberately.” Henry David Thoerau
Nos dias de hoje, o meu desejo de proximidade com a natureza também se traduz por trazer um pouco da natureza para dentro de casa, e por isso não dispenso estar rodeada por plantas em casa, e por vezes também de flores. E talvez por isso, tenha um prazer especial em fazer vasos e jarras, que tenho disponíveis na minha loja online.
Se gostam deste tema, podem também reler este post que escrevi há uns tempos aqui no blog:
"Mais Plantas, para uma Casa Saudável e Bonita".
Desenvolver um hobby criativo
Seja pintar, desenhar, fazer cerâmica, bordar, fazer crochê, atividades d.i.y, etc...(hoje existem dezenas de. cursos por aí), esta pode ser uma ótima forma de escapar ao stress do trabalho, contrabalançar as tristezas do mundo laboral (se for o caso), desligar das tecnologias e ligar-nos ao aqui e agora, necessário a qualquer trabalho criativo que se faça.
Um pequeno pensamento que me apraz partilhar: a partir do momento em que transformamos um hobby num negócio, ele deixa de ser um hobby e passa a ser trabalho (com todas as implicações e desafios que isso traz). Hoje em dia vejo por vezes a tendência e vontade de se rentabilizar os hobbies, mas isso implica o fim da leveza, descontração e alegria, que só mesmo um hobby nos pode trazer (e que sabe muito bem).
Ie ao Teatro
Se sempre gostei mais de cinema do que teatro, hoje em dia sinto que ir ver uma boa peça de teatro é algo super especial. E acredito que à medida que as tecnologias e a inteligência artificial tomam conta do nosso mundo, atividades que implicam contacto e presença humana serão cada vez mais valiosas.
Infelizmente ainda não consegui ir ver a peça de teatro que mais gostava de ver, que é a "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas", mas posso partilhar a peça que vi mais recentemente e que adorei: o "Arte". Está em cena no Teatro Maria Matos, é super cómica e interessante, está muitíssimo bem interpretada, e abre caminho a um diálogo em torno da diferença e pluralidade de formas de ver e sentir arte. Recomendo vivamente.
Fazer Refeições sem Ecrãs
A necessidade de estarmos permanentemente entretidos e distraídos leva-nos a fazer hoje muitas refeições em frente ao telemóvel ou a um ecrã de televisão. E quando o fazemos, a mesa deixa de ser o centro, e passa a ser simplesmente o cenário de algo a que não estamos propriamente a prestar atenção. E justamente porque quero treinar a minha atenção e aprender a viver mais no momento presente (porque como disse acima, acredito que isso é uma das formas de sentir que o tempo não passa tão rápido), tenho feito o esforço (quando estou sozinha) de estar simplesmente atenta e a saborear aquele momento. E posso dizer que tenho gostado muito de o fazer.
Muitas mais sugestões haveria para fazer, não fosse este post já estar tão longo.
Mas espero que tenham gostado, e terei todo o gosto em ouvir também as vossas sugestões e ideias nos comentários abaixo.
Boa semana a todos e
um abraço,
Sofia












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