Nenhum de nós escolhe o século em que nasce, a cor da pele em que nasce, nem os cromossomas com que nasce. Não escolhemos os nossos pais, nem o nosso país de origem, e muito menos as nossas características físicas.
No entanto, como diz Maria Popova, dentro destes limites tão estreitos do ser, nada nos atrai mais do que a ideia de liberdade, e a sensação de que somos livres. Ilusão embriagante com que suavizamos o duro facto de que em certos aspetos fundamentais da vida não o somos.
Sentimos que a escolha da forma como levamos a nossa vida é prova da nossa liberdade total. Escolhemos a nossa profissão, escolhemos em quem votamos, escolhemos onde vivemos, escolhemos entre interesse próprio e bem coletivo, escolhemos entre respeitar os limites dos outros ou ultrapassá-los, mas quando a questão se aproxima do núcleo do nosso ser, essa ilusão desfaz-se como areia entre os dedos.
E em nenhum outro lugar isso é mais evidente do que no território mais íntimo da experiência do amor. Tenta decidir amar (ou deixar de amar) alguém. Ou tenta fazer com que alguém te ame. Imediatamente embatemos na verdade fundamental de que não nos foi concedida a liberdade de escolher o que sentimos.
Nem poderíamos escolher, porque também não escolhemos quem somos.
No entanto, somos totalmente responsáveis pelo que fazemos com isso.
Em todo o caso, em qualquer amor que seja verdadeiro, amamos com tudo o que somos.
James Baldwin, ensaísta, poeta, e dramaturgo afro-americano que em 1948 parte para Paris para fugir ao racismo e homofobia que proliferavam no seu país, torna este paradoxo da liberdade o tema central do seu romance semi-autobiográfico "O Quarto de Giovanni".
O livro conta a história de David, um jovem americano que vive em Paris e que se vê dividido entre expectativas sociais, o medo e o desejo. Envolve-se numa relação intensa com Giovanni, um homem italiano, num contexto em que o amor entre dois homens era socialmente condenado.
O livro explora o medo de amar, explora a ideia de nos encaixarmos em papéis que não nos servem, e fala sobre sermos responsáveis pelas nossas escolhas.
O lugar onde me vou encaixar não vai existir até que eu o crie". James Baldwin
James Balwin, o primeiro artista afro-americano a aparecer na capa da revista Times, foi um eterno defensor da igualdade, e uma voz fundamental na exploração de questões complexas sobre raça, sexualidade e identidade nos Estados Unidos.
E por isso trago-o neste mês em que celebramos a conquista da liberdade coletiva, o fim da ditadura e da repressão política. 25 de Abril ensinou-nos que o medo pode ser desmontado em colectivo, e é um dia que nunca poderemos deixar de celebrar.
Mas autores como James Balwin relembram-nos que existe uma outra liberdade também muito importante que não nos podemos esquecer de viver: a liberdade de sermos quem somos, sem medo (para algumas pessoas, um pouco mais difícil de viver do que aquela que conquistámos com os cravos).
Porque o medo, como sabemos, pode ser uma forma de prisão.
Viver plenamente livre talvez também seja aprender a não fugir do que somos e do que sentimos.
E para terminar, quero partilhar convosco uma música bem a propósito do dia que celebramos amanhã, e que me toca particularmente por ser mulher. Porque se tivesse tido o azar de ter nascido uns anos antes, a vida que tenho hoje não seria possível. E por isso, à semelhança da Ana Bacalhau, quero também agradecer, uma e outra vez, a todos aqueles que nos deram tanto.
Viva a Liberdade, SEMPRE!




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