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Entre a luz e a Sombra

Entre a luz e a Sombra

"O que não se vê nem sempre é invisível.
O que é invisível para uns pode ser visível para outros."


Quando há umas semanas vi na Agenda Cultural que ia inaugurar uma exposição da Lurdes Castro na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) soube logo que queria ir ver.  Admiradora da sua obra há muitos anos, conheci o seu trabalho pela primeira vez quando no segundo ano da minha licenciatura na Faculdade de Belas Artes, uma professora, ao ver umas aguarelas botânicas que eu andava a fazer, me incentivou a ir investigar a sua obra. E deu-se assim o início de um longo amor que perdura até hoje.

Esta exposição é sem dúvida a mais bonita e completa que vi até hoje da sua obra, e por isso tenho pena que tivesse durado tão pouco tempo, e que esteja a escrever este post umas semanas após o seu término. Mas não queria deixar de fazer a minha homenagem àquela que é uma das minhas artistas portuguesas preferidas. além de poder ser uma oportunidade para aqueles que não conseguiram ver.




Lurdes Castro, que viveu uma viva longa (partiu aos 91 anos) e criou um universo de objetos belos à sua volta (tão belos como ela própria), deixou o seguinte bilhete na sua secretária antes de partir:"Não chorem por mim. Só me vou transformar."




Acredito que alguns desse lado possam não conhecer a artista, pelo que deixo aqui um pequeno enquadramento.

Nascida no Funchal em 1930, é uma das figuras mais singulares da arte contemporânea portuguesa. Nos anos 50, estudou em Lisboa, mas foi em Paris (onde viveu mais de vinte anos) que o seu trabalho ganhou maior projeção, ao integrar o grupo KWY, um coletivo de artistas portugueses que explorava novas linguagens visuais, entre a pintura, a colagem e a instalação.

Ao longo das décadas seguintes, Lourdes Castro foi-se afastando progressivamente da pintura tradicional para investigar outras formas de expressão, como a serigrafia, o bordado e o trabalho com tecidos e materiais translúcidos. E é neste percurso que surgem as suas obras mais reconhecidas: primeiro as silhuetas e depois as sombras, onde recorta e fixa contornos de corpos e objetos, criando composições que habitam um território delicado entre presença e ausência, o visível e o invisível.






A simplicidade com que, paradoxalmente, se apaixonou pela vida, definiu-a, Eu sou a Sombra, disse. O Manuel (seu companheiro), é a Luz. Esta é, porventura, a derradeira declaração de quem passou pela vida de forma indelével. Cheia de luz, apesar de se definir como sombra". Márcia de Sousa, curadora da exposição

A partir dos anos 60, e durante mais de quatro décadas, Lurdes Castro explorou o tema das sombras e das silhuetas das mais variadas formas e nos mais variados suportes, tendo-se tornado uma das suas imagens de marca. Recortadas, desenhadas ou bordadas, a artista fixa no tempo aquilo que normalmente é passageiro: um gesto, um perfil, a passagem da luz sobre alguém. E muitas dessas sombras captadas e guardadas pela artista são de pessoas que fizeram parte da sua intimidade.




Para Lurdes Castro a sombra 
nunca é apenas um motivo visual: 
é uma forma de pensar o tempo,
 a memória e a presença.


Pessoalmente, as sombras e silhuetas bordadas sobre tecidos são dos meus trabalhos preferidos, e inspiraram-me, inclusive, a aprender a bordar. Na altura, pedi ajuda à minha mãe para me ensinar o ponto pé -de-flor, e terminei o segundo ano da faculdade com uma série de trabalhos bordados. Pois para além de gostar muito deste conceito do bordado como uma forma de desenho, recordo-me com clareza do prazer e da tranquilidade que o acto de bordar me proporcionou.



No início dos anos 70, Lourdes Castro começa a voltar o seu olhar para as sombras de flores e plantas, entrando numa fase muito importante do seu percurso artístico. É precisamente nessa altura que cria o célebre Grande Herbário de Sombras, realizado na Madeira durante o verão de 1972. 

Este momento coincide com uma transformação subtil na sua obra: as sombras humanas começam gradualmente a dar lugar à natureza. As flores, folhas e ervas tornam-se novas formas de pensar o tempo, a fragilidade e a memória. Já não se trata apenas do corpo humano e do seu contorno, mas da tentativa de fixar mais uma vez aquilo que é naturalmente passageiro: a luz sobre uma pétala, a transparência de uma folha, o instante antes de desaparecer.





Num primeira fase, Lourdes Castro fixa as suas sombras sobre papel heliográfico através da luz solar, como se estivesse a arquivar não a planta em si, mas a sua presença efémera. Numa outra fase, desenha as sombras diretamente no papel. E estes processos irão acompanhá-la durante vários anos, transformando a natureza numa espécie de arquivo poético da luz e do tempo.




Esta exposição da Lurdes Castro é muito mais do que aquilo que aqui falei e mostrei, mas estes talvez tenham sido os trabalhos que sempre preferi e mais inspiraram desde que conheci, pela primeira vez, a sua obra.
Quem não teve oportunidade de ver, espero que este post tenha sido uma pequena janela para o universo delicado e poético desta artista especial.

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