Desde cedo na minha vida que a vastidão do espaço é algo que me fascina. Lembro-me de em pequena ficar fascinada com as chuvas de estrelas que nos verões costuma assistir do terraço da casa dos meus pais no Algarve. E também me lembro de, nesses mesmos Verões, ficar longas horas a contemplar o céu estrelado, numa época em que ainda se viam muitas estrelas a olho nu. Aprendi a distinguir algumas estrelas e constelações, e lembro-me de sentir que lá em cima, de alguma forma, havia um enorme e vasto mistério a descobrir. E justamente por estes temas me serem tão queridos, hoje venho partilhar convosco uma história bonita que envolve um poema, o espaço e um CD dourado.
A história começa com o cientista Carl Sagan, pioneiro dentro da investigação planetária, e um dos mais importantes divulgadores científicos do século XX.
Estávamos em 1990, e a sonda espacial Voyager 1 já tinha cumprido a sua missão principal: passar por Júpiter e Saturno, enviando imagens e dados nunca antes vistos. Estava a mais de 6 mil milhões de quilómetros da Terra, a caminho do espaço interestelar. E normalmente, quando uma sonda termina a missão científica planeada, a NASA desliga a câmara para poupar energia e memória. E era isso que estava prestes a acontecer.
Mas Sagan, que fazia parte da equipa científica da missão Voyager, teve uma ideia ousada:
“E se, antes de desligarmos a câmara, pedirmos à sonda para se virar e tirar uma última fotografia… da Terra?”
Era arriscado. A Terra vista dali seria apenas um pequeno pixel perdido no brilho do Sol. Alguns engenheiros acharam que não valia a pena, mas Sagan insistiu, argumentando que o valor simbólico e filosófico daquela imagem seria imenso.
A NASA acabou por aceitar, e em 14 de fevereiro de 1990, a Voyager girou 180° e captou um mosaico de imagens granuladas do Sistema Solar. E num dos feixes de luz espalhados pela lente, lá estava: um minúsculo ponto azul-claro, quase invisível. A imagem, composta por 640 000 pixeis individuais, mostra a Terra no centro de um raio de luz disperso, resultado de se captar uma imagem tão perto do Sol.
“Todas as pessoas que amas, todas as pessoas que conheces, todas as pessoas de quem alguma vez ouviste falar, todos os seres humanos que já existiram viveram as suas vidas” neste “grão de pó suspenso num raio de sol".(...) A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica". Carl Sagan
Como disse Sagan: "As nossas posturas, a nossa autoimportância imaginada, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, são desafiadas por este ponto de luz pálida. O nosso planeta é um ponto solitário na grande escuridão cósmica que nos envolve. Na nossa obscuridade (e em toda esta vastidão) não há qualquer indício de que a ajuda venha de outro lugar para nos salvar de nós próprios
Talvez não haja melhor demonstração da loucura das vaidades humanas do que esta imagem distante do nosso pequeno mundo. Para mim, sublinha a nossa responsabilidade de nos tratarmos uns aos outros com mais bondade e de preservar e acariciar o pálido ponto azul, o único lar que alguma vez conhecemos."
O Golden Record
Treze anos antes, quando as sondas Voyager 1 e 2 foram lançadas (em 1977), a NASA sabia que depois de estudarem os planetas gigantes, elas seguiriam viagem para fora do Sistema Solar e vagariam pelo espaço interestelar durante milhões, ou até milhares de milhões de anos.
Sagan, que era não só cientista como também um sonhador nato, convenceu a equipa a incluir uma mensagem para qualquer civilização extraterrestre que pudesse, um dia, encontrar a sonda.
Assim nasceu o famoso Golden Record, um disco de cobre dourado que viajou dentro das sondas, e que continha:
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sons da Terra (vento, chuva, ondas do mar, batimentos cardíacos)
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saudações em 55 línguas
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músicas de várias culturas e épocas (de Bach a Chuck Berry, passando por melodias tribais)
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116 imagens sobre a vida no nosso planeta, desde paisagens até bebés e diagramas científicos.
Um pequena curiosidade: Sagan queria incluir o "Here Comes the Sun", dos Beatles, e embora a banda tenham concordado, a gravadora EMI não deu autorização, e a música não entrou na coletânea.
A ideia não era prática pois as hipóteses de alguém encontrar a sonda eram praticamente nulas, mas era profundamente simbólica: um ato de esperança e de curiosidade sobre o lugar da Humanidade no cosmos.
A Brave and Startling Truth
(Uma verdade corajosa e surpreendente)
Em 1995, cinco anos após a famosa fotografia do nossa planeta, a poeta americana Maya Angelou é convidada pela ONU a escrever um poema para ser lido lido em Nova Iorque durante a cerimónia comemorativa do 50ª aniversário da instituição.
E é assim que surge o maravilhoso "A Brave and Startling Truth" (podem ler o poema original completo aqui) que não só é um incrível poema, como continua super atual nos dias que correm. Na altura estávamos num momento em que o mundo ainda estava a viver as consequências de guerras, da colonização, do racismo, genocídios e desigualdades. Mas também começava a nascer espaço para a reflexão, a reconciliação e a esperança.
"Nós, este povo, num pequeno e solitário planeta,
viajando pelo acaso do espaço,
passando por estrelas distantes,
atravessando o caminho de sóis indiferentes,
rumo a um destino onde todos os sinais nos dizem
que é possível e imperativo aprendermos
uma verdade corajosa e surpreendente.
E quando lá chegarmos,
ao dia da reconciliação,
quando abrirmos os dedos
dos punhos cerrados pela hostilidade
e deixarmos que o ar puro refresque as nossas mãos;
(...)
Quando lá chegarmos,nós, este povo, neste minúsculo e órfão planeta,
que todos os dias estende a mão para a bomba, a lâmina e o punhal,
mas que também, na escuridão, implora por sinais de paz;
nós, este povo, neste pequeno grão de matéria,
em cujas bocas habitam palavras corrosivas
que põem em causa a nossa própria existência,
mas de cujas mesmas bocas
nascem canções de uma doçura tão requintada
que o coração vacila no seu trabalho
A Guerra Fria tinha terminado poucos anos antes; os conflitos no Ruanda e na Bósnia ainda estavam frescos na memória mundial, e havia um desejo internacional de reconstruir o diálogo, a paz e os direitos humanos.
E em vez de escrever um poema político, Angelou escreveu um poema profundamente humanista, que é um apelo à superação da violência, do ódio e da destruição, e também uma declaração de esperança: de que a humanidade, apesar das suas falhas e contradições, tem dentro de si a capacidade de criar paz, justiça e beleza.
teremos de confessar que somos nós a possibilidade.
Somos o milagre, a verdadeira maravilha deste mundo.
Será então, e apenas então,
que lá chegaremos."
Um poema no espaço
Este mesmo poema foi incluído como parte de uma cápsula do tempo cultural a bordo da nave Orion da NASA, que foi lançada no espaço em 2014 continuando os esforços para preservar e levar mensagens culturais importantes para além do nosso planeta. Uma forma poética de “levar um pouco da humanidade" nas viagens espaciais.
Após o voo, um exemplar do poema foi entregue ao administrador da NASA, Charles Bolden, durante uma cerimônia em abril de 2015, como parte do legado cultural da missão.
Esta iniciativa simboliza a união entre ciência e arte, levando palavras de esperança e reflexão humana ao cosmos.
A beleza do espaço
O espaço, que é algo profundamente estético, continua a fascinar-me profundamente. As imagens belíssimas que existem de estrelas, nublosas e galáxias distantes continuam a provocar-me um misto de espanto, sobressalto e emoção, como por exemplo esta imagem da Galáxia do Sombrero. Com o seu formato e, espiral, tem de comprimentos cerca de 50 mil anos-luz, e está distante em 28 milhões de anos-luz da Terra. Nunca saberemos , se lá num cantinho remoto desta galáxia distância coisas incrívelmente belas poderão estar a contecer neste preciso momento.
Como disse Sagan: "Somewhere, something incredible is waiting to be known".









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