Show your work

Put yourself, and your work, out there every day, and 
you´ll start meeting some amazing people.
Bobby Solomon


No seguimento do livro "Steal Like an Artist", hoje partilho por aqui algumas das ideias mais interessantes do segundo livro de Austin Kleon, que acabei de ler na semana passada. Bestseller do New York Times, o livro chama-se "Show your work" e achei-o (talvez) ainda mais interessante e útil que o primeiro. Com o sugestivo subtítulo "10 ways to share your creativity and get discovered", aqui ficam algumas ideias a reter para quem anda a desenvolver trabalho criativo. "Be so good they can´t ignore you", diz o  comediante Steve Martin, que diz ainda que se nos focarmos em ser realmente bons, as pessoas acabam por vir ter connosco, o que concordo a 100%. Na verdade, "You don´t really find an audience for your work; they find you."

1 | Não tens que ser um génio

Há muitos mitos errados sobre a criatividade, sendo que um dos maiores será o do "lonely genius", ou seja, a ideia de que existem pessoas com superpoderes que aparecem do nada, livres de qualquer influência e que sem precedentes e de um momento para o outro criam obras extraordinárias como se tivessem uma ligação direta e privilegiada à fonte da criatividade. Se assim fosse, a criatividade seria um processo anti-social destinado apenas a alguns escolhidos. A verdade, é que existe uma forma mais saudável de olhar para a criatividade, e que defende que as grandes ideias se criam pela troca, partilha e ligação entre as mais variadas pessoas, desde artistas, curadores, pensadores, teóricos e tastemakers. Se olharmos para a história, muitos daqueles que consideramos génios, estavam integrados em grupos de pessoas que se apoiavam uns aos outros, que viam o trabalho uns dos outros, que retiravam ideias uns dos outros e contribuíam também com ideias.

Creativity is not created in vacuum, and is always, in some sense, a collaboration and the result of a mind connected to other minds. Austin Kleon

E esta forma de olhar as coisas abre espaço na história da criatividade para os restantes, como nós. Sendo nós uma parte valiosa desse cenário, não se trata do quão inteligente e criativo é cada um, mas sim de como podemos contribuir e que ideias temos para partilhar. Hoje em dia com as redes sociais, os blogs, e a internet no geral, é possível partilharmos e falarmos sobre coisa que nos interessam, receber inspiração e inspirar outros e sermos verdadeiramente criativos.


2 | Sê um amador

Se todos temos receio de ser considerados amadores, (sendo que na verdade um amador não é mais que um forte entusiasta que pratica o seu trabalho com paixão e espírito livre ), Austin Kleon diz que é muitas vezes ele que tem vantagem sobre o profissional.  Como têm pouco a perder, os amadores estão mais dispostos a arriscar, a tentar mais coisas e a partilhar o que fazem.

That´s all any of us are: amateurs. We don´t live long enough to be anything else. Charlie Chaplin

E muitas vezes, no processo de fazer as coisas de uma forma menos profissionalizada, fazem novas descobertas. "In the beginner´s mind there are many possibilities. In the expert´s mind, there are a few." Um amador não deixa de ser uma pessoa normal, apenas tremendamente apaixonado por alguma coisa, na qual passa grande parte do seu dia a pensar.

Share what you love, and the people who love the same things will find you. Austin Kleon 

3 | Não podes encontrar a tua voz se não a usares

Estamos sempre a ouvir dizer que devemos encontrar a nossa voz e aquilo que nos torna únicos. A questão é que só a podemos encontrar se a usarmos.
Talk about the things you love, your voice will follow. Austin Kleon

Hoje em dia, com a internet,  já todos temos a oportunidade de ter uma voz e partilhar com o mundo o que somos, gostamos e fazemos. Quando mais o fizermos mais à vontade nos sentiremos para o continuar a fazer. Se queremos dar a conhecer o que fazemos temos que partilhá-lo na internet.


4 | Pensa em processo, não em produto

Quando um artista fala no seu trabalho pode estar a falar em duas coisas diferentes: no seu trabalho final acabado e exposto, ou no dia-a-dia do seu processo criativo: nos bastidores do seu atelier enquanto procura inspiração, faz esboços, e pesquisa uma ideia. Ou seja, há uma diferença entre o processo do artista e os produtos do seu processo. Antigamente, o artista era ensinado a trabalhar em segredo, mantendo as suas ideias e trabalho fechado até ter um produto excepcional digno de ser partilhado publicamente numa exposição ou galeria. E isto fazia sentido na era pré-digital, visto que que o artista tinha pouco contacto com o seu público. Com a internet e as redes sociais, o artista tem hoje uma liberdade que nunca teve antes e pode partilhar o que quiser, quando quiser a praticamente custo zero. Além de que já se descobriu que:

Human beings are interested in other human beings and in what other human beings do. By putting things out there, consistently you can form a relationship with your customers. It allows them to see the person behind the products. Audiences not only want to stumble across great work, but they, too, long to be creative and part of the creative process. Austin Kleon


Por isso, o autor aconselha a que nos tornemos documentaristas do nosso próprio trabalho. Embora muitos de nós ache que não tem nada de interessante para partilhar, na verdade há sempre pessoas interessadas nos mesmos temas.  Tira fotografias do trabalho em diferentes etapas, filma um video, faz esboços, diagramas, desenhos, pinboards, esquemas, protótipos, coleções, notas, etc..

Whether you share it or not, documenting and recording your process as you go along has its own rewards: you´ll start to see the work you´re doing clearly and feel like you´re making progress. And when you´re ready to share, you´ll have a surplus of material to choose from. Austin Kleon

5 | Partilha um pouco todos os dias

O sucesso de um dia para o outro é um grande mito. Se pesquisarmos qualquer história de sucesso vamos encontrar uma década (ou mais) de trabalho árduo e perseverante. Criar um corpo de trabalho substancial demora na verdade bastante tempo, pode até levar uma vida inteira. Mas não nos foquemos nas décadas, nem nos anos e vamos-nos também esquecer dos meses. Foquemo-nos nos dias.

Once a day, after you´ve done your day´s work, go back to your documentation and find one little piece of your process that you can share. Where you are in your process will determine what that piece is. If you are in the very early stages, share your influences and  what's inspiring you. If you are in the middle of executing a project, write about your methods or share work in progress. If you´ve just completed a project, show the final product, share scraps from the cutting-room flor, or write about what you learned. Austin Kleon

Essa partilha pode ser feita de formas muito diferentes: um post num blog, um email, um tweet, um Pin no Pinterest, uma foto no Instagram, um post no facebook, um video no Youtube. E não vale dizer que não temos tempo. Todos somos hoje em dia bastante ocupados, mas o dia tem 24 horas. Se calhar temos de deixar de fazer uma ou outra coisa que também gostamos , mas podemos sempre encontrar tempo para o fazer, se o quisermos verdadeiramente.

One day at a time. It sounds so simple. It actually is simple but it isn´t easy: it requires incredible support and fastidious structuring. Russel Brand

As redes sociais são pois ótimos locais para essa partilha, no entanto não os controlamos a 100%. Assim como existem hoje podem deixar de existir amanhã. Por isso, se estamos realmente interessados empartilhar trabalho e ideias e expressar-mo-nos, o melhor mesmo é possuir o nosso próprio espaço online que nós próprios controlamos,  uma espécie de "sede"  onde quem nos quiser encontrar encontra, e que pode tomar a forma de um site ou blog.

A blog is the ideal machine. One little post is nothing on its own, but publish a thousand of blog posts over ass decade, and it turns into your life´s work. My blog has been my sketchbook, my studio, galley, my storefront, and my salon. Absolutely everything good that has happened in my career can be traced back to my blog. My books, my art shows, my speaking gigs, some of my best friendships - they all exist because I have my own little piece on the Internet. Austin Kleon
Não devemos pensar no nosso espaço online como uma self-promotion machine, mas sim como uma self-invention machine (adoro esta ideia). Online, podemos tornarmo-nos naquilo que queremos verdadeiramente ser. Enche o teu site ou blog com o teu trabalho, ideias e coisas que te interessam.

Don't worry about making a bunch of money or being successful. Be concerned with doing good work. Patti Smith

O lado bom de termos o nosso próprio espaço online, é podermos fazer o que quisermos com ele. Independentemente se as pessoas aparecerem ou não, nós estamos lá a fazer a nossa parte e prontos para quando as pessoas chegarem.

6 | Mostra o teu Gabinete de Curiosidades

Os Gabinetes de Curiosidades (ou Quartos das Maravilhas) eram pequenas salas onde durante a época das grandes explorações e descobrimentos dos séculos XVI e XVII se colecionavam e expunham objetos raros e exóticos trazidos de outras partes do mundo. Dentro desses gabinetes encontravam-se muitas vezes livros, esqueletos, conchas, ossos de animais, arte, plantas, pedras, minerais, artefactos artesanais, entre outros. Foram os percursores daquilo que hoje conhecemos como museus.  Cada um de nós tem também os seus tesouros secretos e as suas coleções pessoais que podem ser mesmo gabinetes de curiosidades físicos (como livros,  diários, musicas, filmes, coleções, cadernos, etc) ou algo mais intangível como as nossas memórias, as pessoas que conhecemos, os locais que visitamos, os nossos afetos.

We all carry around the weird and wonderful things we´ve come across while doing our work and live our lives. These mental scrapbooks form our tastes, and our tastes influence our work. Austin Kleon

E como o autor diz, não há uma grande diferença entre colecionar e criar, ao contrário do que possamos pensar. Muitos escritores dizem que ler e escrever estão completamente interligados, e que a leitura alimenta a escrita.

Where do you get your inspiration? What sort of things do you fill your head with? What do you read? What sites do you visit on the Internet? What music do you listen to? What movies do you see? What do you collect? What do you pin to the corkboard above your desk? Who´s done work that you admire? Who do you steal ideias from? Who do you follow online? Austin Kleon

As nossas influências valem a pena ser partilhadas porque muitas vezes dão pistas às pessoas sobre quem somos e o que estamos a fazer - às vezes até mais que o nosso próprio trabalho. Há que ter a coragem de ser transparente e honesto e não ceder a pressões para "editar" demasiado os nossos gostos. Não vale a pena tentar ser hipcool; ser aberto e honesto acerca do que gostamos é a melhor forma de nos conseguirmos ligar às pessoas que partilham os mesmos interesses.



7 | Conta boas histórias

A forma como olhamos para as coisas à nossa volta está profundamente ligada com o que sabemos e a informação que temos sobre elas. As histórias são poderosas criadoras  de valor, e as palavras têm um poder que por vezes subestimamos. Ao contrário do que muitas vezes pensamos, o trabalho nem sempre fala por si próprio. Nós gostamos de saber de onde as coisas vêm, como foram feitas e quem as fez. As histórias que contamos acerca dos nossas peças e do nosso trabalho têm um impacto enorme na forma como os outros o sentem e recebem.  E a forma como as pessoas o sentem e recebem é a forma como o valorizam (ou não). Quer queiramos ou não, cada foto que postamos, que comentário que fazemos, cada email que respondemos, cada post de blog que escrevemos, cada video que fazemos  está a contar uma história acerca do nosso trabalho.
If you want to be more effective when sharing yourself and your work, you need to become a better storyteller. You need to know what a good story is and how to tell one. Austin Kleon

8 | Ensina e partilha o que sabes

Muitos de nós não gosta de ensinar e partilhar o que sabe porque tem receio da competição. Mas ensinar não significa necessariamente competição instantânea. Só porque aprendemos a técnica de um mestre não significa que vamos conseguir imitá-lo imediatamente. Se formos ver, foi justamente o factos de muitos chefs terem partilhado as suas receitas e técnicas, que se tornaram conhecidos e ricos. Ensinar aos outros o que sabemos não nos retira valor, pelo contrário, acrescenta. Quando ensinamos algo do nosso trabalho a alguém estamos na verdade a gerar mais interesse à volta dele.
The minute you learn something, turn around and teach it to others. Share your reading list. Point to helpful reference materials. Create some tutorials and post them online. Use pictures, words and video. Take people step-by-step through part of your process. As blogger Kathy Sierra says, "Make people better at something they want to be better at." Austin Kleon


9 | Põe o foco no outro

Independentmente do quão famosos ficam,  os criativos que mais vale a pena seguir hoje em dia são aqueles que não procuram fãs nem consumidores passivos do seu trabalho, mas sim aqueles procuram  potenciais colaboradores e inspiradores. Estas pessoas sabem que o trabalho criativo não é feito sozinho e que a experiência da arte é sempre uma rua de dois sentidos,  ou seja, incompleta se não houver feedback.  Eles gostam de participar no mundo online e gostam de responder a questões e ligarem-se ao seu público.

If you want fans, you have to be a fan first. If you want to be accepted by the community, you have to first be a good citizen of that community. If you´re only pointing to your own stuff online, your´re doing it wrong. You have to be a connector.  If you want to get you have to give. If you want to be noticed you have to notice. Austin Kleon

Não vale a pena preocuparmo-nos com a quantidade de pessoas que nos segue, mas sim com a qualidade das pessoas que nos segue.  E para isso temos que nos tornar alguém que valha a pena ser seguido. Como diz Elizabeth Gilbert, uma pessoa interessante é uma pessoa interessada. "If you want to be interesting you have to be interested.
It´s all about paying attention. Attention is vitality. It connects you with others. Susan Sontag
10 | Aprender a ser criticado

A partir do momento que tornamos público o nosso trabalho o mais comum acontecer é receber críticas. Aprender a recebê-las de uma forma tranquila é fundamental. Más críticas não são o fim do mundo e nunca ninguém ficou doente por receber uma. Austin Kleon sugere que continuemos a trabalhar.
Keep moving. Every piece of criticism is an opportunity for new work. You can´t control what kind of criticism you receive, but you can control how you react to it. Austin Kleon

Há que não esquecer que a maior parte das vezes a crítica não é pessoal e que o nosso trabalho é uma coisa que nós fazemos e não aquilo que somos. "keep close to your family and friends and the people who love you for you, not just the work."

11| Não desistir do sonho

Todas as carreiras têm os seus momentos altos e baixos e é importante não desistir prematuramente. Como disse Paul Valéry, o trabalho nunca está terminado, apenas abandonado. O que nos vai permitir não abandonar é uma grande dose de paixão e persistência.

If you want a happy ending that depends, of course, on where you stop your story" Orson Wells 

O sucesso ou insucesso de um projeto não é garantia do sucesso ou insucesso do próximo. Independentemente do momento que estamos agora, a questão é sempre: o que fazer a seguir? Se olharmos para aquele que tiveram vidas artísticas longas, detectamos um padrão semelhante: todos eles tiveram a capacidade de ser perseverante, independentemente do sucesso ou fracasso.

Instead of taking a break in between projects, waiting for feedback, and worrying about what´s next, use the end of one project to light up the next one. Just do the work that´s in front of you, and when it´s finished, ask yourself what you missed, what you could have done better, and jump into the next project. Austin Kleon 

Imagens Homes in Colour

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