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O Poder da Escrita


Se como  diz Miguel Esteves Cardoso, escrever é um bocadinho a dívida que se paga pelo que se leu, também acredito que a escrita começa quando a vida, tal como é, não chega para nos preencher.

Cada vez mais sinto que escrever, para além de uma forma de ajudar a dar sentido à vida e organizar os pensamentos, é também uma maneira de intensificar a experiência de se estar vivo.

Desde cedo, a escrita começou a fazer parte da minha vida. Por volta dos sete anos, pouco depois de ter aprendido a escrever, comecei a rabiscar as minhas primeiras frases num pequeno diário de folhas perfumadas. Numa caligrafia irregular e imperfeita, relatava pequenos acontecimentos felizes dos meus dias de criança (como por exemplo, a viagem com os meus pais à Lourinhã para ver as pegadas dos dinossauros) ainda sem a consciência de que através desse processo saboreava duas vezes as coisas boas da vida.

We taste life twice.
In the moment and in retrospective.

- A N A I S  N I N

Imagens Pinterest

E durante muitos anos, passar para o papel aquilo que se passava dentro de mim tornou-se não só uma forma de preservar para sempre alguns dos momentos mais felizes, como também de fazer a catarse daqueles mais tristes e dolorosos. Numa espécie de terapia interior absolutamente simples e gratuita.


To write is to think
with the help of paper.

- J U L I A N   S H A P I R O


Até que parei. A entrada na Faculdade de Belas Artes encarregou-se de substituir na minha vida as imagens pelas palavras. E só em 2014 (quando comecei este blog) encontrei por fim uma forma de regressar à escrita, e de casar estes dois mundos diferentes.


Ao longo de seis anos escrevi aqui mais de 600 posts (a grande maioria relacionada com o mundo da decoração e do design) sem qualquer tipo de pretensão exceto a de partilhar coisas que genuinamente gostava e me inspiravam (a par das minhas próprias experiências criativas).


No dia 11 de Setembro de 2018, uma mudança abrupta no rumo da minha vida teve uma inesperada repercussão nos conteúdos do meu blog. E pela primeira vez, fruto da natureza dos acontecimentos que se desenrolavam naquela altura, comecei a publicar com mais frequência textos de cariz um pouco mais pessoal e introspetivo.


Textos mais semelhantes àqueles que ao logo de muitos anos escrevi no silêncio dos meus diários.


E nessa escrita mais intimista e pessoal, acabei por encontrar uma forma de me inspirar e de me religar à vida.


Ao publicá-los também aprendi uma coisa que me foi bastante importante: ao contrário do que muitas pessoas pensam, é possível sermos pessoais e autênticos sem necessariamente desnudar a nossa vida pessoal.

(sem qualquer tipo de crítica para aqueles que o fazem).


É que não sei bem porquê (talvez no fundo apenas por pudor ou timidez) cada vez mais sinto  necessidade de manter privada a esfera da minha vida pessoal.


Que o ser humano nunca perca
a capacidade de preservar a sua intimidade.

- L Í D I A  J O R G E


Março de 2020 chegou e com ele esta pandemia tão inesperada quanto brutal, que pôs o nosso mundo de pernas para o ar e as nossas vidas em stand-by. E com ela, também o meu blog abrandou. Por um lado, porque tive muitos momentos profundamente desinspirados (quem não?...). Por outro, o tempo também começou a escassear com o crescimento das vendas online do meu pequeno negócio.

Ainda fiz algumas publicações e criei alguns conteúdos, mas a certa altura percebi que já o estava a fazer mais por obrigação do que pelos motivos certos, e decidi fazer uma pausa.

Sometimes you have to step away
from what you love in order to learn
how to love it again

- D A M I E N   R I C E

 

Mas na verdade, o que gostava realmente de partilhar convosco hoje não é nenhuma notícia sobre o futuro do meu blog (nem as minhas preocupações relativas a ele), mas a importância que a escrita teve na minha vida nos últimos meses.


Porque na verdade, eu nunca parei de escrever.

Apenas fiz uma pausa na escrita de posts publicáveis e regressei aos desabafos mais íntimos da alma. Daqueles que não têm interesse para ninguém exceto para aquele que os escreve.

Daqueles que falam de tudo e não falam de nada, que dizem tudo e não dizem nada.


E percebi que fazer isso me fazia bem.

(porque as palavras também fazem companhia e aconchegam o coração).

 

E ao longo de 2020 escrevi bastante (umas vezes à mão, outras diretamente aqui no computador), e a escrita foi-se tornando uma terapia e uma espécie de meditação.

 

Escrevi para compreender melhor os meus medos, angústias e ansiedades (e para os tentar acalmar).

Escrevi para mais tarde recordar o que foi viver esta pandemia.

Escrevi para me religar a mim mesma sempre que me sentia perdida.

Escrevi para melhorar a minha escrita.

Escrevi para combater a solidão.

Escrevi para não me esquecer de ser grata pelas coisas boas da vida.

Escrevi para me inspirar.

 

Em suma, escrevi para combater a morte

e salvar a vida.

 

E é isso que a escrita pode fazer por nós.

(mesmo que não tenhamos talento para ela ou quaisquer pretensões literárias)


Imagem Pinterest

Num mundo demasiado rápido e volátil, as palavras que escrevemos ficam, permanecem e têm o poder de enriquecer e fortalecer a relação connosco próprios e com o mundo.


Numa época em que tudo nos distrai e nos desconecta, a escrita tem a capacidade de nos ajudar a focar no essencial e nos religar ao nosso mundo interior.

 

Novalis disse: “ o pouso da alma é aquele lugar onde o mundo interior e o exterior se encontram”.

 

Que a escrita se torne para nós, o pouso seguro das nossas almas.


2 comentários

  1. Maravilhoso e motivador sem duvida um medicamento natural para ajudar nos dias de incertezas e receios que vivemos actualmente

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